O LAGO DE CORUPUTUBA

A foto acima obtive em 1967 com a minha antiga Bieka. É o lago da Fazenda Coruputuba, em Pindamonhangaba.

sábado, 10 de maio de 2014

Promoção automática



Minha beata Santa Catarina, vós que sois digna e clara esposa do Divino Espírito Santo, que entrastes pelas portas de Abrahão e abrandastes quatrocentos homens todos bravos como leões e com palavras de justiça conseguistes abrandar os seus corações, abrandai o coração dos meus alunos para que se tornem mansos como cordeiros. Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém.
Oração a Santa Catarina, rezada por alguns professores antes de ir para a sala de aula


Está bem, desculpem, não é promoção automática não. Como se chama mesmo? Seria progressão continuada?
Eufemismos à parte, a pedra de tropeço da educação pública nas últimas décadas é esta: a promoção automática. Principalmente para a segunda metade do ensino fundamental. As crianças de primeira a quarta séries são menos atingidas pela praga. Porém os adolescentes rapidamente descobrem: não repete.
E é assim: não repete, aconteça o que acontecer, estude ou não estude, compareça ou não compareça às aulas, faça ou não faça a tarefa, traga ou não traga o material, o adolescente sabe: não repete. Quer dizer: tanto faz.
Ingressamos na preguiçosa era do tanto faz e tiramos do adolescente o seu motor, que é o desafio. Tiramos o desafio do estudante, não há motivo para estudar, para cumprir, para respeitar regras...
O professor, que no começo falava mal da promoção automática, foi também se acomodando à situação. Percebeu que é melhor deixar rolar. Antes, o professor ficava magoado, percebia aquela coisa acontecendo com seus alunos, reparava: encaminhado para as aulas de reforço, o aluno fraco não comparecia, desprezava aquela ajuda, encarava a ajuda como um castigo... E o professor reparava de novo: o aluno desprezava a ajuda, tão necessária, e daí? Daí nada, não repete... O aluno passava do mesmo jeito. Tanto faz!
Ainda antes de ser decretada a promoção automática, esta já existia, no entender dos delegados de ensino que queriam auxiliar o governo a obter melhorias estatísticas. Desde aquele tempo, os professores perceberam que o melhor é só dar notas azuis, porque estas não precisam ser justificadas. Ah, mas se der notas vermelhas! Tem que preencher tanta planilha, apresentar tanto comprovante de que o professor se comportou direitinho, apresentou planejamento, preencheu certinho, sem uma rasura, sem um errorex, o diário de classe... Nossa! O melhor mesmo é dar logo uma nota boa, sem parar para pensar no quesito merecimento.
Um professor me diz: “Eu faço força para o aluno se interessar pela aula, falta só eu dançar em cima da mesa, ninguém liga. No noturno tem uma turma que fica jogando truco no fundo da sala. Alguns entregam prova em branco e, quando sai a nota baixa, vêm tirar satisfação, que eu devia considerar... Mas, na verdade, não se preocupam, já sabem que não repete. Bem que eu queria ensinar, mas como ensinar quem nem ao menos comparece? Ou, quando comparece, nem olha para o meu lado?”
O mesmo professor me conta: Olhou para a classe e viu uma mocinha desconhecida. Perguntou: – Ué, aluna nova? Você veio de onde? E a menina: – Qualé, teacher, sou aluna desde o começo do ano, pode ver, o meu nome é tal, taí na chamada, não tá? E o professor: – Mas eu nunca vi você na classe! Nossa, é mesmo, o seu nome está aqui no diário, só tem falta, você nunca veio, já é outubro, você já repetiu!
Mas a menina não se estressou: – Ô teacher, que isso, é só o senhor dar um trabalho pra tirar as faltas!
A indiferença dos alunos pelos estudos tem, nos últimos anos, se manifestado de forma tão arrogante que o mínimo respeito pelos professores vai desaparecendo, e a situação em sala de aula se torna caótica. Nas classes de adolescentes, alguns professores entram com medo, já não se sentem com autoridade suficiente para mandar, resta-lhes pedir humildemente, às vezes negociar. Se o mestre consegue obter a simpatia de um chefe de gangue, é através deste que as ordens são passadas aos alunos. Evidente que não podemos responsabilizar apenas a promoção automática por esse estado de pré-criminalidade na escola. Mas a certeza do “não repete” veio se juntar aos demais motivos que levam os alunos a desobedecer, desrespeitar, avacalhar, agredir...
Esses professores, desrespeitados e diminuídos, já desistiram de levar queixas aos diretores, nem pensam mais nisto. Para quê? Para escutar frases do tipo:
1-    Precisa ter mais paciência;
2-    Melhor não enfrentar;
3-    Olha que a mãe dele vai na delegacia;
4-    Mas será que não é você que precisa mudar o seu jeito?;
5-    Mas não se pode exigir muito deles;
6-    Tenta falar de novo com ele, mas com jeitinho;
7-    Você tem que entender que ele está em fase de desenvolvimento...

Já foram classificados de “defensores da cultura da reprovação” os que se metem a fazer tais análises. Engano. Não é isto. Todo bom professor detesta reprovação de alunos. Todo bom professor se sente realizado quando seus alunos são promovidos para a série seguinte. Desde que eles passem de ano porque demonstraram competência, não porque iam passar de qualquer jeito mesmo.
Enquanto isto, os filhos da elite continuam ralando nas escolas que exigem esforço, aplicação, realização. Estão se preparando para continuar ocupando os cargos de mando, as profissões mais disputadas, as funções melhor remuneradas, os papéis de maior prestígio social. Estão tendo o mesmo tipo de educação exigente que tiveram, no passado, os atuais ocupantes de cargos de mando, aí incluídos os responsáveis pelas decisões políticas sobre educação.
Quanto aos filhos dos trabalhadores, estudando nas escolas onde não repete, vão adquirindo uma visão de si muito positiva, a autoestima cresce, infla, infla. Isto pode ser bom no momento. Mas o triste é que a visão de si que adquiriram é falsa, o ego inflado vai estourar, espetado pelo espinho do primeiro mau resultado num concurso, num vestibular, numa entrevista para emprego... Ah! Teria sido melhor para os filhos dos trabalhadores que tivessem passado por uma escola que exigisse empenho, que valorizasse o esforço produtivo, que ensinasse o sabor da vitória obtida pela seriedade e determinação.
E os governos, não vão fazer nada? Vão sim, quando se tornarem muito fortes as queixas dos empresários que, cada vez mais, se ressentem da falta de trabalhadores minimamente responsáveis, cumpridores de horários e de compromissos, dignamente alfabetizados, capazes de ler e entender os manuais de procedimentos. Capazes, quem sabe (aí já é um sonho?), capazes de redigir esses manuais.
Eu também já defendi a promoção automática.
Eu acreditava numa escola tão boa, com tantos recursos, que nenhum aluno conseguisse passar por ela sem aprender. Nem que fosse por osmose, o aluno aprenderia muito numa escola com muitas atividades produtivas. Aluno atrasado seria encaminhado para atividades de reforço, de frequência obrigatória. As classes teriam no máximo vinte e cinco alunos, o professor ganharia tão bem que poderia se dedicar exclusivamente para o trabalho em uma determinada escola. Fora dos horários de aula, o professor ficaria em seu gabinete, tanto preparando aulas e corrigindo exercícios, como atendendo os alunos em dificuldade.
Ah! E a escola teria Orientador Educacional, cargo que não consta mais dos planos dos governos, nem dos sonhos dos sindicatos, apesar dos fracassos formativos que acontecem nas escolas todos os anos. Fracassos que só chegam à mídia quando assumem o nível de desgraças, tragédias.
E também já inventei a minha promoção automática.
Houve uma época em que eu via alunos serem retidos por motivos tão bobos! Em outro lugar deste blog conto a história do Jofre ("Quem serve para ser professor"), que foi reprovado no quarto ano do curso normal porque não sabia o que é mancinismo. Também já vi, faz tempo, aluno ser retido em História porque não sabia algum detalhe da vida de um dos reis da França. Ou ser reprovado em Geografia por ter errado a ordem dos afluentes do Rio Amazonas.
Quando comecei a lecionar, final da década de sessenta, as crianças de primeira série repetiam de ano. Era um sistema tão ingrato, tão ineficiente! Quem repetia a primeira série era obrigado, no ano seguinte, a começar novamente a cartilha. Assim, quem tinha dificuldade em ler e escrever as sílabas mais complexas – que ficavam no final da cartilha – nunca chegava a estudá-las, pois, derrubado antes disto, no ano seguinte não chegava a enfrentá-las: começava o estudo na mesma lição que ia ocupar as cabeças de seus novos coleguinhas.
Quem repetia de ano ia ficando cada vez maior, em comparação com o restante da classe. Assim é que toda classe de primeira série tinha um enorme meninão, muitas vezes já com quatorze anos, no meio dos pequerruchos. Aquilo era humilhante. E os humilhados podem adotar outras posturas diante da vida. Era comum que alguns partissem para a violência contra os pequenos, ou começassem a ensinar besteira para eles. Também era possível que aquele meninão, ou aquela moçona, se tornasse uma espécie de monitor da classe, ajudante da professora, colaborando em tomar lições das crianças, em ver os cadernos.
Fazendo estágio na classe de primeira série da Tatá[1], acompanhei a aula sobre a lição da Macaca. Era a cartilha que toda escola usava. A lição começava com uma preciosidade assim: “A macaca é má”. Abaixo daquela frase, e de mais uma ou duas frases igualmente inconsequentes, vinham três pequenas colunas de palavras formadas somente por sílabas bem simples. Uma delas era a palavra “mania”. A Tatá, alegrinha, querendo introduzir um pobre ar de Escola Nova naquela escola antiga, perguntou: quem sabe o que é mania? O meninão da classe da Tatá era o Manuel, que todo mundo chamava de Mané. Pois ele falou: Eu sei, Professora. E ergueu os dois braços, fazendo com eles uma curva, encostando as pontas dos dedos da mão direita nas pontas dos dedos da mão esquerda, fechando um círculo: “Eu sei, professora, mania é um canão assim, que nem o que o pessoal tá enterrando lá atrás da fábrica.” Claro, estava se referindo às manilhas da rede de captação de água do Paraíba.
Noutro dia, outra aula, agora sobre Tiradentes, a Tatá perguntou quem sabia alguma coisa sobre esse herói. E o Manuel interveio, que sim, que ele sabia quem era Tiradentes. Era um homem que morreu enforcado na árvore da beira da represa, o pai dele contou. Foi na represa perto do chalé, o primeiro tanque.
Nessas ocasiões a Tatá ficava muito vermelha, não sabia se ria ou se chorava, diante das tiradas do meninão da classe. Sendo que as outras professoras também tinham, cada uma, o seu meninão ou a sua moçona, chamados de cavalão, cavalona, marmanjo...
Anos mais tarde, quando me tornei diretor de escola, inventei umas regrinhas para evitar esse tipo de constrangimento. Criança repetente de primeira série tinha que, no ano seguinte, continuar a cartilha a partir de onde tinha parado – e não mais recomeçar tudo desde a primeira lição. Isto eu implantei na Escola Benedita Freire de Macedo em 1980, muito antes do Governo pensar em inventar o ciclo básico. Também inventei que, no primário, quem começasse a criar bigodinho ou despontar os seios não podia repetir de ano. As professoras adoravam, isto acabava com os meninões e moçonas do fundo da classe.
Então – isto anos mais tarde, na Escola Ismênia – o Haroldo, da terceira série, acabou se beneficiando, mas não acreditou. É que ele todo ano abandonava a escola em outubro. Não sei por que motivo, sempre que o verão ia chegando o Haroldo pulava o muro e não aparecia mais. Voltava no começo do ano seguinte, para matricular-se de novo na terceira série. Pois aconteceu que o Haroldo tinha sumido de novo e, no começo do ano seguinte, eu decretei: O Haroldo passou para a quarta série, pode colocar na lista. Não veio fazer matrícula? Azar dele, tanto faz, vai para a quarta! Tive que ir até a casa dele, era janeiro. Contei: – Haroldo, você passou de ano! E ele: – Não, professor, não passei não. – Passou sim! – Não passei não... Mas ele acabou sendo convencido. Foi para a escola, frequentou a quarta série pela primeira vez na vida, de peito estufado. E passou para a quinta e não parou mais.
Portanto, não somos da cultura da reprovação não. Só achamos que, para passar de ano, precisa o aluno fazer força, conquistar a promoção como toda promoção precisa ser conquistada: com esforço, com empenho. E não de mão beijada, numa escola que não repete.

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Texto de Paulo Tarcizio da Silva Marcondes
No livro “Aconteceu na Escola”
Imagem: Santa Catarina de Alexandria



[1] Tatá é a Professora Maria Apparecida dos Santos