O LAGO DE CORUPUTUBA

A foto acima obtive em 1967 com a minha antiga Bieka. É o lago da Fazenda Coruputuba, em Pindamonhangaba.

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Burro de carga



O pároco da Aldeia Distante precisava mandar temporariamente a Imagem Milagrosa para a igreja da Aldeia Próxima. O único meio de transporte disponível era o Burro que o Carvoeiro se dispôs a alugar. Trato feito, a Imagem presa com segurança ao lombo, lá foi o Burro pela estrada, tocado pelo Carvoeiro.  Nas vendas da beira do caminho, cessavam as piadas, parava a bebida e o bilhar, pessoas tiravam o chapéu à passagem da Milagrosa Imagem. E na chegada à Aldeia Próxima, os moradores se ajuntaram na rua diante da igreja, houve quem se ajoelhasse com devoção. E o Burro pensou que todo aquele respeito era para com ele. Orelhas erguidas e peito estufado, dizia para si mesmo: “Finalmente reconheceram o meu valor!”.
Então, a Imagem foi retirada e todo mundo foi atrás dela, entrando na igreja, largando na praça o Burro sozinho com o Carvoeiro. Este, para não perder a viagem de volta, amontoou no lombo do Burro muitos sacos de carvão para vender na Aldeia Distante e, imediatamente, os dois pegaram o caminho de volta. Agora, ninguém tirava o chapéu. Alguns moleques jogaram pedra, ainda atiçaram cachorro contra o Burro, que, meio espantado, orelhas murchas, ia meditando: “Estas pessoas de agora não são espertas como as daquela hora, não percebem o meu valor...”.
Assim conta a fábula. E temos que nos lembrar que fábulas são inventadas pelos humanos usando figuras de animais para explicar o comportamento de quem? Ora, dos humanos mesmo. De verdade, sabemos que os burros são inteligentes, não são burros não. Na mocidade, tendo que cavalgar pelas estradas de roça, eu percebia que o burro sabia para que lado a porteira abria, ajudava-me posicionando-se de modo a me facilitar o alcance da tranca, depois tirava depressa o lombo para que a porteira não batesse nele. Cavalos não entendiam disso, não ajudavam.
Reflito sobre esta fábula cada vez que assumo um Cargo, e cada vez que deixo um Cargo. Já assumi cargos através de disputadíssimos concursos e já assumi cargos por corresponder à confiança do Governante – este, por sua vez, assumindo um cargo pela confiança do povo. Primeiro, sei que Cargo e Carga são a mesma coisa e ainda resultam no verbo Carregar. Assumir um cargo exige disposição para carregar, para levar a carga com segurança e respeito até o final do caminho contratado.
Tenho procurado ser, com relação aos muitos cargos que já assumi, um honrado Burro de Carga. Que se orgulha, sim, de ter sido selecionado para fazer o transporte. Mas sabe perceber que uma coisa é o seu próprio valor – e outra coisa é o valor da carga, que deve ser levada sempre cuidadosamente, para que não seja danificada, para que não se estrague, para que não se perca. Para que as pessoas continuem confiando nos que assumem cargos.
Para que as pessoas continuem respeitando os Burros de Carga que honram suas cargas.
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Texto de Paulo Tarcizio da Silva Marcondes, escrito em 04/12/2012