O LAGO DE CORUPUTUBA

A foto acima obtive em 1967 com a minha antiga Bieka. É o lago da Fazenda Coruputuba, em Pindamonhangaba.

sábado, 3 de novembro de 2012

A pesquisa surrupiada



Corria o ano de 1964 e os poderes constituídos de Pindamonhangaba se lembraram: no ano seguinte se completariam cem anos do envio de tropas brasileiras contra o Paraguai.  Como vários pindamonhangabenses participaram daquela guerra, o Dr. Chiquinho Romano promulgou a Lei nº 745, de 10/12/1964, instituindo prêmios em dinheiro para os três melhores trabalhos de estrita pesquisa histórica em torno do tema “Pindamonhangaba e a Guerra do Paraguai”. O artigo 4º da Lei prometia: “O trabalho classificado em primeiro lugar será publicado pela Prefeitura Municipal”. Só poderiam participar estudantes do colegial, normal, ginasial e comercial da cidade.

A exigência de “estrita pesquisa histórica” afastou da contenda os pesquisadores que só aprenderam a se apoiar nas obras já publicadas e que se furtam ao esforço de folhear documentos antigos, manuscritos difíceis de ler, papelada contaminada de poeira e bichinhos. Também não podia ser um trabalho ligeiro. O artigo 5º dizia que os trabalhos não podiam ter menos de cinquenta páginas de papel almaço datilografados com espaço um.

Quem iria se dispor a iniciar uma pesquisa que resultasse num trabalho assim? Somente quem se sentisse dotado das condições intelectuais exigidas pela tarefa – e estivesse precisando de dinheiro. A Lei estabelecera prêmio de Cr$100.000,00 (cem mil cruzeiros) para o primeiro colocado. Ao segundo e ao terceiro lugares caberiam Cr$60.000,00 e Cr$40.000,00, respectivamente. Lembrando: o salário mínimo na época era de Cr$42.000,00. O meu irmão Luiz Gonzaga, que cursava o segundo ano do científico, disse: Vou concorrer!

Antes de iniciar a pesquisa propriamente dita, preparou-se. Leu tudo que havia sobre o assunto, todos os autores. Quando se sentiu pronto, apresentou-se na Câmara, queria compulsar as atas. Recebeu apoio gentil e verdadeiro do secretário Sr. Mario Jacinto. A partir daí, durante alguns meses, todos os dias ia revirar os velhos manuscritos, enfrentar a caligrafia complicada, os papéis atacados de papirófagos, tentando traduzir aqueles registros de épocas passadas. Anotava tudo.
 
Nas suas leituras de historiadores, descobriu – e colocou no trabalho – que Francisco Solano Lopez, o líder paraguaio, era casado com Alice Lynch, uma irlandesa dotada de visão política avançada. Descobriu também que o exército brasileiro foi o primeiro do mundo a usar um balão aerostático para observar as tropas inimigas. Incluiu anotações sobre o construtor Chiquinho do Gregório, sobre os nobres da cidade, os políticos da época. E descobriu – ai que triste! – que a Câmara, além de relatar ao Imperador a lista dos pindamonhangabenses que fizeram doações para a causa da Guerra, também encaminhava a lista dos que não contribuíram.

Então, um dia, o trabalho estava pronto para ser datilografado. Arrumou emprestada uma máquina de escrever. Comprou papel. Não sobrou dinheiro para comprar papel carbono, assim o trabalho seria datilografado em apenas uma via. É preciso lembrar? Naquele tempo não existia xerox.  Mas não fazia mal, se ganhasse o primeiro lugar, o trabalho ia ser publicado pela Prefeitura, talvez uns quinhentos exemplares...

Dias e dias, ficava martelando a maquininha na varanda da nossa casa em Coruputuba. Entendeu que a Lei, ao falar em cinquenta folhas de papel almaço, estava querendo dizer cem páginas. Tudo bem, fez um trabalho datilografado de cem páginas. E foi à Prefeitura para entregar, no prazo legal. Ninguém quis receber, não tinha sido formada a comissão julgadora. Então foi à Câmara, procurando quem pudesse receber o trabalho. Ninguém recebeu. Ficou o Luiz Gonzaga um tempo andando de um lado para outro com o trabalho dentro de uma pasta.

Por insistência do Dr. Angelo Paz da Silva, o prefeito Chiquinho Romano promulgou nova lei, a Lei nº 812, de 02/12/1965, concedendo o prêmio de Cr$100.00,00 ao estudante Luiz Gonzaga da Silva Marcondes, que tinha sido o único concorrente.

Mas o dinheiro nunca saiu. Nem a publicação. Ninguém queria pegar o trabalho da mão dele. Até que, já em 1971, um personagem da cidade, tido como defensor das tradições e guardião da história, ofereceu guarida ao valioso documento, recebendo-o das mãos do desesperançado pesquisador: “Pode deixar comigo que eu mando publicar”.

E nunca mais se ouviu falar do trabalho “Pindamonhangaba e a Guerra do Paraguai”.

* * * * *
Texto de Paulo Tarcizio da Silva Marcondes