O LAGO DE CORUPUTUBA

A foto acima obtive em 1967 com a minha antiga Bieka. É o lago da Fazenda Coruputuba, em Pindamonhangaba.

segunda-feira, 5 de março de 2012

Medo de boi

Claro que eu tinha medo de boi, mas disfarçava bastante e, de tanto disfarçar, até que acabei diminuindo meu medo. Mais tarde, na vida adulta, cheguei a lidar com gado. Mas, na infância e na adolescência, o duro mesmo era me defrontar com boi solto. Ah, meu Deus, se houvesse uma cerca de arame farpado, eis a salvação! Quanta vez corri e vazei por baixo do arame! E depois fiquei bem contente vendo a boiada passar.
Mas sem arame, fazer o quê?
Pavor eu tinha era quando ia indo cedinho, madrugada, quase noite ainda, junto com o Zaga, para pegar o Pássaro Marrom das seis e cinco no Portão (era assim mesmo, o ônibus tinha esse horário exato!) para ir estudar na Escola Normal - e o Zaga, no Científico.

Às vezes, havia uma boiada no caminho.

Acordávamos com o apito das cinco horas. Era tempo de acender o fogo, passar o café, comer rapidinho, pegar os cadernos e nós dois íamos, no meio do frio, pegar o ônibus na estrada. Passávamos a linha e seguíamos. Daí a pouco, no meio da escuridão, a boiada! Por causa do escuro, ainda não dava para ver os bois, mas já se escutavam os barulhos e se sentiam os cheiros fortes. Quase todos estavam deitados e tínhamos que ir passando no meio deles, aqueles elefantões. E o Zaga tinha mais medo do que eu! Precisava que eu desse coragem para ele!

De vez em quando, um boi bufava, soprando. Outro ficava em pé e sacudia as orelhas, roncava baixo, como um rangido. O barulho me fazia mal, dava um negócio ruim por dentro, mas tinha que continuar fingindo de valente, desviando dos bois e dos montes de bosta... Não havia uma bendita cerca de arame! E não adiantava desviar da estrada e entrar pelos eucaliptos, a boiada estava espalhada no meio das árvores.

Meu Deus, quando conseguíamos finalmente atravessar para o outro lado, que alívio! Mas, assim mesmo, eu seguia olhando mais para trás do que para frente. Até que chegava o Portão e o dia estava começando a clarear. Mais um pouco, a gente escutava o tranco do ônibus passando no pontilhão da Vila São Benedito e via a luz dos faróis iluminando os fios dos postes.

Chegou o ônibus. Vamos para Pinda, estudar de manhã, trabalhar à tarde e só voltar para casa quando estiver escurecendo. Depois começa tudo de novo.

Mas nunca faltamos à aula por causa de boi não deixar a gente passar. Bem capaz!
 
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Texto de Paulo Tarcizio da Silva Marcondes