O LAGO DE CORUPUTUBA

A foto acima obtive em 1967 com a minha antiga Bieka. É o lago da Fazenda Coruputuba, em Pindamonhangaba.

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Os teus olhos


São tão ariscos os teus olhos!
Se os meus os buscam, emocionados,
Só posso vê-los num relance,
Pois eles fogem correndo, amedrontados...

Sei que me estás olhando,
Sinto os teus olhos em mm
Mas se de repente os encaro, eles fogem
Para o horizonte, para o chão, ou para o céu!
- como ficam sozinhos os meus!

Teus olhos, os teus límpidos olhos!
Quero vê-los de frente. Olha-me!
Olha de frente para mim!
Assim...

(São os meus que fogem agora.
Não me olhes de frente assim...) 

*    *    *

Poema de PAULO TARCIZIO DA SILVA MARCONDES
Livro “Terra Vegetal” – Reg. BN n. 133.608

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Deixa que eu lavo


Olha, se for para lavar que nem o zóio, deixa que eu lavo, que eu lavo direito e ainda me divirto lavando.

É durante a lavagem da louça que posso meditar na transitoriedade do universo.
Vejo uma situação caótica, o caos primordial, no qual será implantada a ordem. Primeiro, um guardanapo usado vai retirando os vestígios alimentares, para que a água possa trabalhar sem fazer o papel do papel.

Vagarosamente vou classificando as peças segundo algum critério lógico.

Pratos, pratinhos, pires, tigelas e cumbucas, separados em suas categorias. Os talheres, que apontavam cada qual num sentido, vão assumindo o paralelismo das retas, agora todos apontando na mesma direção.


Que desça agora, clara e límpida, sonora e festiva, moderadamente, a água da torneira. Apenas para um umedecimento inicial.

Agora, faço esguichar uma, duas vezes, o potente jato do detergente sobre a esponja mole, receptiva e molhada.

Movimentos circulares sobre a superfície azul dos pratos deixam uma esteira de espumas flutuantes e prossigo, com o pensamento em Castro Alves.

Os pratos, pires e xícaras azuis me lembram os antigos frascos de Leite de Magnésia Phillips.

Garfos, facas, colheres e colherinhas sempre me deixam com um pouco de dor de consciência: estarei caprichando apenas na lavagem das lâminas, pontas e dentes? Estarei me descurando dos cabos?

Mas de fato os cabos das facas, colheres e garfos necessitam ser muito bem lavados? Eles se sujam menos que as pontas, estas sim que sempre vão à luta.
Os cabos são a garantia da retaguarda.


Agora, tudo ensaboado, não vamos iniciar a enxaguada em seguida não. Vamos primeiro esvaziar esta pequena banheira que é a cuba da pia. Tiremos tudo, sendo tudo colocado em pilhas espumosas em ordem de tamanho: pratos grandes embaixo.

A cuba da pia receberá a massagem vigorosa da esponja (a face mais cruel, a verde) para ficar impecavelmente limpinha, antes de receber as peças que serão enxaguadas.

Que se economize a água. Que a pequena e disciplinada catarata desça exatamente sobre a pilha que ainda aguarda.

Enquanto vou enxaguando xícaras e pires, talheres e pratinhos, a pilha de louça maior vai se beneficiando com a suave tromba d’água que, sem intenção, desce inundando, fazendo transbordar as pequenas lagoas circulares, derramando para fora as últimas espumas brancas.

Quando vou trabalhar com as louças grandes, elas praticamente já se enxaguaram sozinhas. Quase que basta apenas uma apresentação ritual à água, como num batismo. E elas vão se organizando no escorredor.


Agora, lavar a garrafa térmica. Por dentro, três águas, sendo o recipiente balançado em movimentos circulares. Por fora, lentamente girando sob a torneira. Por fim, a tampa, humilde, pequena, será lavada com gestos minimalistas.

A tarefa se aproxima dos movimentos finais. Venha agora o rodinho, puxando as pequeninas ondas de água que desceram das louças recém-banhadas.


Tudo estará encerrado quando eu pegar (num gesto meio displicente) a garrafa térmica, passar em volta dela o pano de prato, primeiro para cá, depois para lá e por fim por dentro da alça.

Colocada a garrafa sobre um canto da pia, terminei. Contemplo a obra concluída.
Agora fique tudo aí, escorrendo e secando naturalmente no ar. Nada de enxugar louça com o pano.

Ah, daqui a pouco é hora do café. Algumas dessas peças vão direto do escorredor para a mesa.

E não foi lavado que nem o zóio não.

*  *  *  *   *

Texto e fotos de Paulo Tarcizio da Silva Marcondes



domingo, 21 de agosto de 2011

No meio da Mata Atlântica



 
No sábado santo fui para o Mato. Na véspera já tinha organizado mochila e lanche. Saí de casa às 5h20min, a pé até a Rodoviária. Na fila do guichê encontrei o Seu Heraldo, jardineiro, que ia para Minas. Consegui viajar no banco da frente, ótimo para não enjoar. O ônibus entrou em São Luiz do Paraitinga. Dia esplendoroso, céu azulíssimo!!
Em São Luiz tomei um pingado com um pão de queijo. De novo no ônibus, desci no Alto da Serra, no barzinho. Conversei com a dona, sobre o meu livro. Tomei mais um café com pão de queijo – e entrei no Mato. Eu estava de roupa civilizada, tênis.
Parei no lugarzinho próprio dentro da mata para trocar de roupa, calçar as botas. Ali é muito gostoso de estar, ainda se ouve bem o ruído dos carros, mas a gente já está livre de ser visto. Em volta da gente só a natureza, as árvores, os pássaros, os raios de sol. Acabei de trocar de roupa e peguei a picada. O sol bem baixinho ainda, de frente para mim.
A picada está boa, só fui me atrapalhar depois dos “troncos velhos”, na beira do barranco das taquarinhas, muito fechado, ali já comecei a arranhar os braços e o pescoço. Mas passei, sem usar o facão. Mais para frente, na subida à esquerda depois do pau caído, fiquei na dúvida. Então, voltei até as taquarinhas, vi que estava certo e peguei a picada de novo.
Mas eu me atrapalhei mesmo foi quando vi que cheguei no pau do rinoceronte pelo lado de cima, sem passar por esse pau (é uma árvore que caiu ao longo do caminho, não morreu, brotou um galho forte bem vertical e cresceu, parecendo o chifre de um rinoceronte). Pois bem. Anos atrás, eu vinha chegando pelo caminho e encontrava esse tronco deitado paralelo com o caminho, no meu lado esquerdo. Era esse o ponto onde eu tinha que tomar uma saída à direita, não podia ir em frente porque em frente ia sair em lugar nenhum.
Pois não é que hoje eu cheguei nesse lugar vindo pela direita, quer dizer, pelo caminho que eu devia pegar depois do pau do rinoceronte. Não entendi. Explorei todas as direções. Resolvi continuar o caminho que anos atrás eu pensei que não fosse para lugar nenhum. Fui sair numa grota funda, caminhei por ela para a direita, descendo até uma agüinha (deixa o trema, por favor).  Desisti, voltei, subi até quase o pau do rinoceronte.
Ali vi o caçador que vinha descendo. Gritei: “Amigo! Ô amigo!” ele parou, desconfiado. Eu me identifiquei: “Sou o Paulo, de Pinda!”. Ele olhou bem, sorriu mais tranquilo. Apresentou-se, era de Jacareí. Contei que estava atrapalhado, mas ele falou que estava certo. Ele estava acostumado a descer pela grota mesmo. Fomos juntos, por dentro da grota e eu fiquei conhecendo esse caminho diferente do meu. Esse desce e, antes da tal agüinha, sai à direita. Subimos, subimos e de repente caímos no caminho meu conhecido. Ah!
E continuamos até o Rio do Descanso. Aí nos despedimos porque eu queria andar sozinho, e ele também, estava na vista. Pelo que ele disse, eu entendi, adivinhei, que ele conhece um rancho por aqui. E nenhum caçador quer divulgar onde fica o seu rancho.
Depois que fiquei sozinho no Rio do Descanso fiz um lanche, lavei o rosto e segui em frente. Mais ou menos pelo mesmo caminho do caçador, porque às vezes eu pisava no rastro dele. Às vezes não, então sabia que ele tinha pegado uma variante (ou eu que peguei). Na primeira vez que esbarrei no cotovelo do Rio Bonito evitei, desviei para a direita, sabia que era cedo demais para encostar nesse rio.
Quando encontrei o segundo cotovelo, aí sim, cheguei nele. Na areia da beirinha d’água achei o rastro do pé esquerdo do rapaz de Jacareí, entendi que ele DESCEU o rio (eu tinha que SUBIR o rio). Ah! Então o rancho que ele conhece é descendo o rio! Bom saber que tem algum rancho por aqui, de outra vez vou encontrar.
Mas entrei na água e fui subindo o rio. Não muito tempo, logo procurei na margem e achei a picada de novo. Saí e fui por terra até encostar de novo no Rio Bonito. Bem na pedra onde costumo entrar nele de vez. Na última vez que eu tinha vindo (janeiro de 2000), foi nessa pedra que eu me sentei para comer uma sobrecoxa de frango.


Bom, agora fui caminhando por dentro daquela água rasinha, transparente, cor de água onde pingaram conhaque. Lindo esse rio, com alguns raios de sol atravessando a água e iluminando as pedrinhas. Na verdade, nem existe esse nome de "Rio Bonito". É um pobre afluentezinho do Rio Ipiranga. Creio que ele, na maior parte de seu curso, fica meio que paralelo à Trilha do Angelim, a um quilômetro mais ou menos dessa trilha. Bom. Passei pelo tronco de madeira de lei caído atravessado no rio, abaixei-me e passei por baixo. Madeira boa, quantos anos (faz quatorze anos que o conheço) e ele nem começou a apodrecer, com toda essa umidade!

Passei pelo xis da Xuxa: duas árvores, uma de cada lado do riozinho, se inclinaram em direção uma da outra e se cruzaram, formando a letra e eu passo por dentro dela. Nada de rastros na areia, então o caçador realmente não subiu o rio, ele desceu o rio e eu estou tranquilo, sozinho de verdade, como tinha planejado. Continuei e dessa vez foi tranquilo, nenhuma tranqueira, até que cheguei ao meu acampamento, na margem direita (na esquerda de quem sobe).
Beleza, lugar bom! Mas não armei a rede logo não. Sentei na pedra. Tirei a roupa, tomei um banho na água fria do Rio Bonito.  O sol mal penetra até aqui embaixo, fica um rendilhado de luz dourada e de sombra no verde das bromélias no chão, no sépia das folhas mortas, no verde-musgo dos troncos antigos.
O banho frio é frio mesmo, a água do riozinho parece água de porta de geladeira, mas enquanto eu me enxugo já vem um calorzinho gostoso tomando conta do corpo da gente. Visto a roupa limpa que trouxe protegida em saquinhos plásticos dentro da mochila. A roupa que estava usando está molhada, suja de tanto ter me esfregado nos troncos limosos e de ter caído no solo encharcado.
É, eu caí umas três vezes nessa viagem.
Bom, agora fui visitar o meu saco pendurado na árvore. Está lá, com minhas lonas e panelas. Retirei a lona maior, a panela pequena e as cordas. Estendi uma corda entre duas árvores bonitas, cheias de orquídeas e de raízes adventícias descendo como um cortinado. Estiquei a lona por cima da corda, virou uma barraquinha. Por baixo, estendi nas mesmas árvores a minha rede. Pronto, estava armado o meu pouso.
Agora sim, banho tomado, roupa trocada, casinha montada, vamos fazer uma comidinha. Álcool na espiriteira, margarina na panelinha, pico duas salsichas com uma cebola, um temperinho, um saquinho de arroz, completo com uma canequinha de água do rio: ôpa, um risoto cheiroso, no meio da Mata Atlântica. Não tem onça para vir farejar a comidinha quente? Não tem, pelo menos não com coragem de se aproximar.
Agora, escovar os dentes, ajeitar o cobertor na rede, cobrir a cabeça: o frio está de lascar. Acordei maravilhado, deslumbrado, estavam projetando numa tela o retrato de um quadro moderno, abstrato, cores vibrantes justapostas, amarelos, ocres, vermelhos, verdes de várias tonalidades, dourados e azuis, tudo meio fora de foco. Eu tinha cochilado, estava olhando a mata iluminada pelo sol da tarde.
Era o quê, umas quatro horas da tarde. Desci, troquei de roupa, vesti de novo a roupa molhada, fui andar no mato, do outro lado do riozinho caiu muita árvore, está entupido de galharia, parece que não dá para chegar na picada por  terra, vai ter que ser por dentro d’água mesmo, sorte que a bota é boa.
Ziguezagueando, achei a picada, passei por cima do tronco da moça – um tronco caído com formato de duas pernas meio cruzadas, o musgo crescendo na junção das pernas... Subi o bendito Morro da Raiz, parei duas vezes para descansar. Sentei lá em cima, perto das taquaras, fiquei escutando a araponga. Araponga no meio da solidão, pensei: foi por isto que vim aqui.
Desci, voltei para o humilde acampamento. Escurecia, vesti de novo a roupa seca de dormir, acendi de novo a espiriteira, fiz um chá, enchi a canequinha, fiquei bebericando, olhando a escuridão que ia crescendo no meio das árvores. E lá em cima o céu ainda estava azul. As pererecas começavam a cantar, uma em cada árvore, outras nas pedras do riozinho. Quando virou um coro frenético de pererecas e rãzinhas, a noite fechava, lavei a boca, fui me ajeitar na rede, que frio...
Dormi muito, muito. Acordei para ir ao banheiro, o céu estava tomado de estrelas. É tarde da noite, pensei. Deitei de novo, liguei o radinho. A Rádio Costa Azul estava tocando músicas bem antigas e daí a pouco, entre um comercial e outro, anunciou: Em Ubatuba, pontualmente, vinte horas e trinta minutos.

Virei para o lado, puxei a coberta na cabeça, tremia de frio. Pensei, vai demorar muito para o sol nascer... 
Então a noite já tinha virado uma orquestra de pererecas, rãs, sapinhos, grilos...
A água do rio, em minúsculas cachoeiras, continuava com sua sonoridade pequenina, constante, a mesma de dez mil anos atrás. Essa aguinha está correndo humilde assim desde antes de se erguerem as pirâmides do Egito. Acordei quando os raios do sol já estavam tentando varar a folhagem das grandes árvores. Os passarinhos já tinham começado a cantar.
Ir ao banheiro e depois tomar um café quente, ora essa. Eu tinha levado café solúvel e leite em pó, com duas variedades de bolacha. Uma festa na Mata!
*     *     *

Texto de PAULO TARCIZIO DA SILVA MARCONDES
A quarta, a quinta e a sétima fotos foram feitas pelo autor.
As outras foram emprestadas de outros blogs. 

sábado, 20 de agosto de 2011

Quando Deus criou as mães


No dia em que o bom Deus criou as mães  (e já vinha virando dia e noite há seis dias) um Anjo apareceu e disse: “Por que tanta inquietação por causa dessa criação, Senhor?”

E o Senhor respondeu: “Você já leu as especificações desta encomenda? Ela tem que ser totalmente lavável, mas não pode ser de plástico; deve ter 180 partes móveis e substituíveis; funcionar à base de café e sobras de comida; ter um colo macio que sirva para matar a fome das crianças, um beijo que tenha o dom de curar qualquer coisa, desde perna quebrada até namoro terminado... e seis pares de mãos.”

O Anjo balançou lento a cabeça e disse: “Seis pares, Senhor? Parece impossível!”

“Não é esse o problema”, disse o Senhor. “E os três pares de olhos que as mães têm que ter?”

“O modelo-padrão tem isso?”, indagou o Anjo.

O Senhor assentiu: “Um para ver através de portas fechadas, para quando se perguntar ‘que é que as crianças estão fazendo lá dentro’ (embora já o saiba), outro par na parte posterior da cabeça, para ver o que não deveria, mas precisa saber. E naturalmente os olhos normais, capazes de fitar uma criança em apuros dizendo-lhe: ‘Eu te compreendo e te amo’ sem proferir uma palavra.”

“Senhor”, disse o Anjo tocando-lhe levemente na manga, “é hora de dormir. Amanhã é um novo dia...”

“Não posso”, replicou Deus. “Está quase pronta. Já tenho um modelo que se cura sozinho quando adoece, consegue alimentar uma família de seis pessoas com meio quilo de carne moída e convence uma criança de nove anos a tomar banho.”

O Anjo rodeou vagarosamente o modelo da mãe. “É  muito delicada...” , suspirou. “Mas é resistente”, respondeu o Senhor entusiasmado. “Você nem imagina o que esta mãe pode fazer ou suportar.”

“E ela pensa?”

“Não apenas pensa, mas discute e faz acordos”, explicou o Criador.

Finalmente o Anjo se curvou e passou os dedos pelo rosto do modelo.

“Há um vazamento”, constatou.

“Não é um vazamento”, disse Deus, “é uma lágrima. É para exprimir alegria, tristeza, desapontamento, dor, solidão e orgulho.”

“Vós sois um gênio!”, exclamou o Anjo.

Mas o Senhor ficou melancólico: “Isso apareceu assim... Não fui eu quem colocou nela...”



*     *     *


Texto de ERMA BOMBECK
(Erma Louise (Harris) Bombeck nasceu em Dayton, Ohio, a 21/02/1927 e faleceu a 22/04/1996.

* * *

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Irmão


Você é meu irmão, que me quer
E me protege (cego sou) e guia
Pelos caminhos os meus pés.

Deixo de pensar em Você
Às vezes por tempos compridos.
E quando então me lembro
A Sua presença é enorme
E me preenche, total.


Mas se eu sou tentado a agir assim
Tão ingratamente assim,
Em parte é (me desculpe)
Culpa Sua,

Pois todas as vezes em que me lembro
De Você, que preciso de Você,
E O chamo,

Você vem,
Você vem sempre, meu irmão forte,
Meu irmão Jesus.

*     *     *

Poema de PAULO TARCIZIO DA SILVA MARCONDES
Livro "Terra Vegetal" - Registro na B.N. n. 133.608

domingo, 14 de agosto de 2011

Um pássaro está me chamando


Um pássaro me chama, todo dia.
Ele me chama para fora de mim, para o céu azul, para os ramos das árvores, para o sol.
Azulão quer, com seu chamado rouco ou com seu canto limpo, que eu vá para a infância e o contemple: soberbo e imponente.
Bicudo quer mesmo que eu fique tonto com suas variações melódicas de notas agudas embrulhadas em fundo grave.


Bigodinho só quer chacoalhar dentro do papo seus milhares de bolinhas de gude minúsculas e sonoras: chacoalha com força por uns segundos, para, aguarda as bolinhas silenciarem, dá um chacoalhãozinho e chacoalha forte tudo de novo, sem se mover no ramo do cinamomo.
Bonito ou tietê não sei se assobia, se chama, se canta: um fio de ouro de canto fino, no alto do pé de fruta de conde.


Canário da terra chama, chama e estala. Estala e dispara no canto sincopado. Quer minha atenção, quer que eu pare e fique olhando a gaiola na área de serviço de um prédio alto. Quer minha atenção para seus amarelos e laranjas no alto dos pés de caqui perto da escola.


Canário do reino, humilde e virtuose, não se impõe: delicado, apenas oferece o que há de mais fino e ensaiado nas suas sílabas em u, em i, nas suas raras consoantes: flauteia, abaixa, trina e afinal gorjeia.


Coleirinha não liga para linhagens nobres e mostra, na flor de capim em que se balança, o que de melhor o povo pobre pode produzir em canto limpo e nostálgico.
Corruíra onde está? O canto foi aqui mas a pequena bolinha de penas marrons já está naquele arbusto. Cantou ali mas já está entrando no buraquinho da parede, levando um gordo inseto para os filhotinhos insistentes, ocultos. Cantou grossinho, com sete assobios emendados, mas já não está lá, agora estala rascante, é chamado agora, não é mais canto.
Curió canta mais alto que o barulhão da cachoeira ou do roncar do trânsito e impõe o chamado e o canto desabado, pedrinhas sonoras que despencam do alto e não há quem detenha e quando eu penso que chegaram aqui embaixo estão de novo despejando lá de cima.


João de barro só canta em glória e deboche, vem mostrar: "Não tenho medo de vocês, vou fazer minha casa no pau da sua cerca, no poste de sua eletricidade e para trazer o barro e amassar não vou parar de cantar. Eu e a minha companheira. Só paro de cantar para fazer dueto de gargalhadas com ela. Marrons como o nosso barro, nem voamos quando você chega perto".
Pardais vêm de bando, piando forte, querem provar as duas coisas: que não podem ser tocados porque são filhos do Santo de Assis, e podem piar como se cantassem. Querem no volume compensar a desafinação e a falta de variedade dos acordes.


Periquito passa gritando, pelo alto, longe dos telhados, chamam uns aos outros à toa, pra quê, estão se vendo, estão próximos uns dos outros. Chamam a mim, que os contemplo de olhos bobos, daqui do chão.


Pintassilgo chama com um pio fino e rouco, despretensioso. Quando a gente pensa que é só isto, ele tira a flautinha e deixa a gente bobo com as sequências intermináveis. Do alto do coqueiro desce buscando a flor do picão.

Sabiá espera o momento em que todos já cantaram e ficaram quietos. Então ensaia os chamados, como se não soubesse a melodia toda. Espera os amadores se afastarem (vai ficar só nisto?) e então, para mim, que fiquei de pescoço esticado para poder vê-lo no meio dos últimos ramos da sibipiruna, para mim ele trouxe todas as partituras e vai assim, com variações, até o sol acabar mesmo de se esconder.
Sanhaço passa ligeiro, um avião de caça a jato, no voo de flecha rápido dança para cima e para baixo, despreza a linha reta, as curvas o levam direto ao mamão, come e canta, o assobio é forçado, minha boa vontade percebe melodia no gorjeio arrastado, metálico, Vem a companheira, chiam, discutem os melhores pedaços amarelos. Já foram de repente, no vôo balançado para cima e para baixo já chegaram no pé de amora.
Tico-tico tapeia todos nós, finge de pardal leigo em canto, mas chama a fêmea e o chamado já é uma nota límpida, redondinha. Agora você vai ver, pulou para cima do mourão da cerca velha, ergueu o topetinho, agora aguenta a melodia nobre, enganou vocês, não é? Do povo também saem os talentos geniais.
Tié sangue misterioso não se deixa ver a ponto de posar para foto.


Surge de dentro da mata, onde estava chamando com duas notas, a primeira aguda e provocante, a segunda uma oitava abaixo. O chamado sobe e desce como um gráfico de visor de batimentos cardíacos. Não vá você entrar na mata, bobagem, aguarde: tem fruta aqui no pé. Veio, está aí, peitão vermelho, asas pretas. Tudo muito vermelho, tudo muito preto, tudo muito bem definido. Olhou? Já foi, seu bobo. Aparece, você contempla paralisado a ausência posterior. Não é uma ave que está. É um segredo vermelho e negro que esteve, que estava, agora já está chamando dentro da floresta: escuta de novo.
Tiziu, a bolinha preta parada no topo do mourão no meio do pasto. Ou num capim mais alto. Mas nada é muito alto na planície. Ele tem que pular para ver em volta. Pula e chia e cai no mesmo lugar. Pula e chia duas notas rascantes, pronunciando o próprio nome. O ti quando sobe, o ziu na descida. O ziu é mais um jiu, sai meio raspado, como um jriu... Parece que essa segunda parte ele aprendeu ouvindo o chilrear das andorinhas. Mas ele não liga, continua pulando e repetindo o nome que lhe deram.


Pássaro-preto é o senhor dos altos eucaliptos, o canto mais alegre e gozador, debochado, superior: assobia, assobia em duas notas repetidas, repetidas e desaba a dar os assobios encadeados, são os assobios mais límpidos e lisos, para quem tinha começado com chamados que pareciam mais aspirados que soprados. Mas o final é sempre deprimido, como uma gargalhada irônica em voz grossa, que vai se sumindo e termina numa exclamação de zanga.

Mas é você que me chama de verdade há longos anos, Bem-te-vi!

Do alto das antenas de TV, quase não vejo mais você encarapitado nas árvores. Vejo você num momento assumindo o grotesco de dar corridinhas pelo chão do asfalto, vindo beliscar pipocas e bichinhos, como um pombo qualquer. Mas em seguida você assume a nobreza antiga dos grandes coralistas e a disputa dos seus companheiros me empolga: quem me viu, quem me viu, bem, te vi, te vi, e gargalhadas agudas em uníssono encerram a discussão.
Eu ouço vocês, sei que me estão chamando, amigos Bem-te-vi. Todo dia eu falo: Ah lá! estão me chamando! Eu falo, mas eu não vou, ainda. Sei o estado das minhas asas. Ainda não vou com vocês, que me chamam com toda essa insistência. Mas quero duas coisas, meus companheiros: que minhas asas se completem e que vocês não desistam nunca de me chamar.
Um dia vou atender ao seu chamado.

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Texto de PAULO TARCIZIO DA SILVA MARCONDES

sábado, 13 de agosto de 2011

Quando Deus criou os pais

(adaptado de um texto de Erma Bombeck)


        Quando o bom Deus foi criar os Pais, começou com um grande esqueleto. E um Anjo-mulher, vendo-o trabalhar, disse: “Que espécie de Pai é esse? Se o Senhor fez as crianças tão rentes ao chão, para que um Pai tão alto? Ele não poderá jogar bola-de-gude com o filho sem se agachar, nem poderá pôr a criança na cama sem se curvar, nem beijá-la sem se inclinar.”

        Deus sorriu e disse: “Sim, mas se Eu o fizer tão pequeno, para quem as crianças erguerão os olhos?”

        E Deus fez as mãos daquele Pai grandes e rijas. E o Anjo balançou a cabeça, dizendo: “Mãos tão grandes não poderão manejar alfinetes de fraldas ou pequenos botões, nem fazer curativos ou remover farpas.”

        Deus sorriu e acrescentou: “Sei disso, mas elas são grandes o bastante para guardar tudo o que sair dos bolsos de um menino, e pequenas o suficiente para empalmar o rosto de uma criança.”

        E Deus modelou pernas longas e esguias, e ombros largos. Ao que o Anjo ralhou: “Não compreende que criou um Pai sem colo?”

        Deus, pacientemente, explicou: “As Mães precisam ter colo. Um Pai necessita de ombros fortes para puxar um carrinho, empurrar um balanço ou amparar um pequenina cabeça adormecida, quando as crianças voltarem do circo para casa.”

        Deus estava em plena criação dos maiores pés que alguém já tinha visto até então. E o Anjo não se conteve: “Isto não está errado? Acredita honestamente que essas pranchas enormes conseguirão se levantar sem fazer ruído quando o bebê chorar de madrugada? Ou caminhar pela sala apinhada numa festinha de aniversário sem pisar em pelo menos três dos pequenos convidados?”

        Deus, sorrindo, afirmou: “São para trabalhar. Você verá. Eles permitirão que o Pai brinque de cavalinho com seus filhos, servirão para espantar os ratos da casa, e o obrigarão a usar sapatos capazes de conter muitos brinquedos no Natal.”

        Deus prosseguiu trabalhando toda a noite, dando ao Pai poucas palavras, mas uma voz firme e autoritária; olhos que viam tudo, mas continuavam calmos e tolerantes. Finalmente, quase como numa reflexão tardia, acrescentou-lhe a lágrima. E perguntou ao Anjo: “E agora, percebe que ele poderá amar tanto quanto uma verdadeira Mãe?”

        E o bom Anjo calou-se, comovido.     


* * * * * *


Erma Louise (Harris) Bombeck (Dayton, Ohio, 21 de fevereiro de 1927 - 22 de abril de 1996

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Primavera



Quando está se aproximando a  primavera a cidade se transforma, vira uma festa de flores. As ruas ficam mais bonitas e alegres, com as árvores todas coloridas. Como ficam belos os flamboyants perto do cemitério, e os da entrada do Ouro Verde! Que exagero de beleza! Mas os anunciadores de nossa primavera são os ipês. Primeiro os ipês-roxos, depois os ipês amarelos. Espalhados pela cidade, um bem longe do outro, no entanto todos vão abrindo suas flores no tempo certo.




Parece que alguém foi de árvore em árvore avisando: - Olha, a primavera chegou, é hora de florir!  E então até aquela árvore sozinha, isolada, longe das outras, cercada de paredes, até aquela plantinha humilde e solitária descobriu que tinha chegado o tempo certo e abriu suas pobres florinhas...



E nós? E nós seres humanos? Quantas vezes nos esquecemos da chegada da primavera! Quantas vezes nos esquecemos de florescer, nos deixamos vencer pela tristeza, pela rotina, pela depressão...
Se até as plantas se entusiasmam e se alegram! E nós com tanta dificuldade de nos abrir para o mundo, para o sol, para o céu, para as cores... Às vezes parece tão difícil  abrir nossas melhores flores, que são os nossos sorrisos!




PRIMAVERA


Não sei como soubeste da chegada
Da primavera. Só sei que floriste.




 


Sei que floriste, mesmo assim, fechada
Atrás do muro acinzentado e triste.



 


O sol cantava pelo campo, fora
Do muro e das paredes da cidade.

E, sem saberes como, tens agora
A primavera da felicidade.

Que era chegado o tempo de florir
Como, longe de tudo, descobriste?


 



Eu não sei se passou ou se há de vir
O tempo certo. Só sei que floriste.

*   *   *   *   *

Poema de PAULO TARCIZIO DA SILVA MARCONDES
Livro “Terra Vegetal” – Registro na BN n. 133.608
Fotos de Paulo Tarcizio (com exceção da foto marcada DREAMSTIME)