O LAGO DE CORUPUTUBA

A foto acima obtive em 1967 com a minha antiga Bieka. É o lago da Fazenda Coruputuba, em Pindamonhangaba.

sábado, 24 de março de 2018

A tempestade mais feia



18 de dezembro de 1952. Uma quinta-feira de muito calor, mas de céu azul, muito limpo. Sem nenhum vento, a tarde abafada. Passaram duas senhoras, conhecidas de minha mãe, pararam para reclamar que estavam lenhando e surgiu o guarda, a cavalo, pôs as duas para correr, não podia catar lenha mais grossa que uma garrafa. E foram embora, para a Vila Campineira, falando, comentando...
A gente morava na Avenida Doutor Cícero Prado, a rua de entrada do bairro. Casas só de um lado. Do outro lado, um bosque de velhos e poderosos eucaliptos. Bem na frente da nossa casa, um deles se destacava dos outros, inclinado para a rua, arcado bem na nossa direção. Quem estivesse na linha do trem olhava e via aquela coisa, aquela árvore muito grossa, ameaçando cair para longe das companheiras.
Eu tinha cinco anos só. Mas já tinha percebido o medo da minha mãe. Qualquer começo de ventania, ela perguntava ao meu pai: “Quito, pra que lado que tá o vento?” E ele abria a janelinha da janela da varanda, olhava um pouco e sempre respondia assim: “Tá pro lado de lá, Nega”.
De tardinha, o sol se escondendo – e escondia logo, porque tudo em volta eram eucaliptos muito altos e encorpados –, mas o ar ainda muito abafado, mamãe foi molhar a roseira de Santa Terezinha, que tinha esse nome porque foi plantada num dia primeiro de outubro. Aos poucos, escureceu, sem vento, calorão.
Vovó acabou de preparar a janta, arroz com linguiça e chuchu, todo mundo jantou e fomos para a sala rezar o terço da noite. Depois, papai ligou o rádio, testando a antena de arame que ele tinha esticado de cima da casa até o pé de abacate. Nós ficamos conversando sobre o Natal que vinha vindo. Vinha vindo, a gente brincava que ontem ele estava perto do Portão, hoje já devia estar chegando na linha, amanhã vai estar perto da casa do Seu João da Ponta.
Um primeiro trovão comprido e longe, repetido e repetindo de novo, agora mais perto, e o barulho do vento chegou duma vez, sem aviso, aumentando sempre mais, e os trovões rebentando e os relâmpagos alumiando, os raios caindo – e ninguém podia falar essa palavra – e as lâmpadas se apagaram e mamãe começou a rezar alto, tão alto que dava mais medo na gente. Vovó foi depressinha para o fogão catar brasas na tampa da panela para queimar palma benta. Fomos todos para o quarto e trepamos na cama da mãe e do pai. Papai tapou os espelhos e acendeu velas e a terra tremia, e dava estrondo. Um estrondo em cima do outro e as telhas debaixo do castigo da chuva de pedra que vinha meio de lado, fazendo um barulhão nas vidraças. As telhas da cozinha se mexiam quando fui no banheiro, voltei correndo.
Estrela do Céu, Maria Santíssima, que a seus peitos criou ao Senhor e extinguiu a mortal peste que no mundo introduzira o primeiro pai dos humanos. Digne-se agora a mesma estrela reprimir os influxos dos astros que, por suas disposições malignas, ferem o povo com pestiferas epidemias”. Isto era papai e mamãe e vovó rezando alto a oração destinada a abrandar as tempestades. Depois começamos a cantar músicas de igreja: “Ó mãe de ternura, o teu puro amor é nossa ventura, alívio na dor! Matutina estrela, um sorriso teu torna a terra bela e serena o céu”. A gente estava era pedindo misericórdias para Deus.
Eu rezava olhando para o quadro de Nossa Senhora Auxiliadora, que tinha em cima da cama da mãe. Nossa Senhora com o Menino Jesus no braço e segurando um cetro.
Os estrondos não paravam. Cada estrondo a terra tremia. O Seu Luiz Crepaldi, nosso vizinho, começou a bater na parede e papai chegou perto da janela do quarto, aos gritos, perguntando o que era. O barulho da cachoeira de água, que caía da calha e batia no cimento da área, não deixava escutar. Mas era que o nosso vizinho escutou as nossas orações e músicas e queria saber se tinha acontecido alguma coisa na nossa casa, porque na casa dele as telhas da cozinha tinham voado e chovia tudo dentro.
Dentro do barulho de vento, chuva de pedra, trovões e estrondos, de repente começou a tocar o apito da fábrica. Meu Deus! Parecia um animal grandão berrando, machucado. Pedia socorro. Precisava dos operários para socorrer alguma coisa lá. O apito ficou tocando, um tempão, igual na passagem do ano, mas era triste, dava angústia.
Daí foi parando a chuva, o vento foi parando, parou, a chuva parou. Trovões foram indo embora, para outro lugar longe, ainda dava um estrondão às vezes e a terra dava uma tremida. Depois a trovoada virou só um resmungo distante e acabou. A gente não queria ir dormir, a luz não voltou, vovó fez chá de erva cidreira, demorou para a gente ficar calmo.
De manhã, acordamos com papai chamando: “Nega vem ver!” Ele estava na varanda. Fomos lá e vimos. O bosque não tinha mais. No lugar uma coisa feia, montanha de eucaliptos, monstros, deitados uns por cima dos outros, alguns com o raizame para cima, lá no ar, ainda com pedação de terra agarrado. Por isso, os estrondos que a gente escutava! A terra tremia cada vez que um gigantão daqueles caía, derrubando outros e batendo com tudo no chão, toneladas.
E o céu estava lindo de azul, toda a destruição estava molhada e iluminada pelo sol amarelo, estava até meio friozinho.
Passarinho morto, eu e o Zaga achamos no quintal. Pé de amora tinha meio que deitado no chão, mas não quebrou. Poças enormes, pegavam a horta e perto do galinheiro. Nesse dia e nos dias seguintes as pessoas grandes falavam coisas que outras pessoas tinham falado, e a gente ia escutando assim:
Que foi que nem um redemoinho, os calipero caíram em toda direção, misturados (quem contava isto fazia com a mão o movimento de pião, dramatizando).
Que o pessoal que mora lá na serra diz que olhava aqui para baixo e via era uma fogueira só de raio, em cima só de Coruputuba. Não tinha essa fogueira de raio na Água Preta, por exemplo, nem em Moreira César, só em Coruputuba.
Que foi ruindade dos guardas, que falaram que não podia catar lenha mais grossa que uma garrafa. Pois caiu foi tudo calipero mais grosso que um barril.
E diz que foi castigo de Nossa Senhora, porque o dia oito de dezembro era para a fábrica não trabalhar, que é dia de Nossa Senhora da Conceição, e não fecharam, fizeram todo mundo trabalhar.
Que foi milagre, que Alguém segurou o calipero grosso, que caiu foi para o outro lado, certinho, para dentro do bosque. Se caísse para o lado de cá, para onde vivia arcado, ia derrubar a nossa casa.
Que foi milagre de Santa Terezinha que a roseira não aconteceu nada com ela e até as rosas que estavam abertas nem despetalaram, nada. Ficaram bonitas, inteiras, com gotinhas de chuva brilhando nelas. Enquanto que calipero grosso virou de raiz para cima, cada um deixando um buracão no chão.

Durante acho que um mês inteiro a gente ficava na janela do quarto da frente, ou então na varanda, vendo bois, tratores, correntes, machados, serras, muitos homens o dia inteiro picando e arrastando o que caiu e no fim derrubando o pouco que ainda tinha ficado de pé.
Eucalipto enorme, reto, altíssimo. Um homem subia até bem alto no calipero, levando a corda. Amarrava lá em cima e descia depressa. Começavam a cortar com machado e depois com a serra, um tanto. Paravam e os outros amarravam na corda um baita tronco para contrapeso. E juntavam uns vinte puxando a corda. O tronco de contrapeso subia, absurdo, balançando no ar, enquanto outros homens metiam machado para acabar de cortar. O bicho gemia, se mexia, as folhas se agitavam e o tronco começava a se inclinar. Um gritava e todos saíam correndo. A gente escutava o assobio das folhas cortando o ar, e daí era o baque com estrondo e a terra tremia. Ficava um tempo caindo que nem uma chuvinha de pedaços de folhas e de casca.
Limparam tudo, tiraram os tocos. Os buracos eles foram enchendo de terra, ficou tudo aplainadinho, para plantar um cafezal. Isto na frente da nossa casa, nos fundos da igreja e nos fundos da Alberto Simi. Tudo foi cortado, tiraram os tocos, tiraram toda raiz. Cafezal no lugar, por todo lado.
Vinte e oito de dezembro, todo mundo pensou que vinha outra daquela tempestade feia. O céu ficou roxo, começou a ventar, mas passou, passou, nem choveu, o sol clareou de novo, não aconteceu nada.
Ninguém morreu na tempestade de dezoito de dezembro. Casas foram danificadas, árvores derrubaram postes e cortaram os fios de eletricidade, mas não teve alagamento nenhum, a engenharia do Alberto Simi era muito boa, tinha sempre lugar para a água escoar.
Naquela noite caiu calipero, caiu cedro, caiu árvore de fruta nos quintais. Caiu árvore dentro do tanque do chalé, diz que no fundo ainda tem, que eucalipto não apodrece dentro d’água, não sei.
Coqueiro não caiu nenhum.
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Se eu tinha cinco anos, meus irmãos tinham: Carlinhos 13, Ana Clara 11, Pedro 9, Zaga 7, Bosco 3, Auxiliadora 1.


Texto de Paulo Tarcizio da Silva Marcondes

sexta-feira, 9 de março de 2018

A horta do grupo escolar rural


 Alunos do quarto ano com o Professor Antônio Calixto Rodrigues

O nosso Grupo Escolar tinha no nome a palavra Rural, mas não era só por causa de estar na roça. Era porque ali havia ensino agrícola mesmo. Aprendíamos a cultivar verduras e legumes trabalhando na horta da escola e depois fazíamos hortas em casa e o professor visitava os quintais de alguns alunos, para verificar como estava indo a produção doméstica...
Duas vezes por semana, após o recreio, a classe toda ia para a horta. Cada um fazia um serviço, as meninas também. Aprendíamos a cuidar das sementeiras, fazer o transplante das mudinhas, molhar os canteiros, pegando água na bica. Existia uma mina d’água no fundo da horta. Depois da ampliação da escola, em 1970, a mina desapareceu, mas ficava mais ou menos onde foram construídas a diretoria e a secretaria da escola nova.

Havia os dias de colheita, quando as verduras estavam prontas para o consumo. Todos levavam para casa sacos de alface, chicória, couve, rabanete... Nos dias de transplante, quem estava fazendo horta em casa ganhava mudinhas prontas para os canteiros definitivos.
Junto à horta, havia um ranchinho muito organizado, construído com toras de madeira. Era o depósito das ferramentas, gerenciado pelo Seu Zé e mais tarde pelo Seu Dito, que acabou se aposentando na Escola Eurípedes Braga, na cidade. As ferramentas ficavam penduradas arrumadinhas e ali a gente pegava e ali as devolvia no final do trabalho. Era preciso limpar e lavar antes de devolver. Assim, estavam sempre apresentáveis as enxadas, os enxadões, as pás, os rastelos...

A glória verdadeira era chegar correndo na frente dos colegas e pegar o peruzinho para ir buscar esterco. Formava-se um trio: um empurrando o peruzinho e os outros dois com pás para catar esterco de boi nos pastos atrás da Vila Jacarandá. Claro que a gente esticava a caminhada, ia procurar esterco perto do primeiro tanque, ou do outro lado do segundo tanque, onde depois fizeram a Casa Amarela. O chato era começar de repente a encontrar esterco verde, fresco: queria dizer que os bois estavam por perto. Acontecia às vezes, e a gente recuava logo, medo de dar de cara com boi bravo no meio dos eucaliptos...
Atrás da Vila Jacarandá tinha umas casas com laranjeiras e às vezes a dona da casa deixava a gente apanhar as laranjas que estavam quase rachando de maduras... Aprendi a abrir laranja na mão, sem faca.


Quando voltávamos com o carrinho cheio de esterco, a Dona Luiza Assoni já tinha preparado uns belos pratos de canjica doce, quentinha, para nós. É que muitas vezes as aulas já tinham acabado, os colegas tinham ido embora e só nós tínhamos sobrado, pequenos heróis queimados de sol na batalha pelo adubo para a horta.
E ninguém achava ruim a demora, nem os professores, nem as famílias. Pequeno paraíso, a nossa Coruputuba. Onde mais, neste mundo, alguém iria confiar uma tarefa daquela para crianças de nove ou dez anos?
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Texto de Paulo Tarcizio da Silva Marcondes
Fotos: Coleção Patrick Assumpção, Museu Histórico e Pedagógico Dom Pedro I e Dona Leopoldina

domingo, 25 de fevereiro de 2018

Xícaras de porcelana dourada


Esse negócio de tomar café elegantemente, um bocado de pão, um gole de café... isso demorou. A gente bebia o café de gúti-gúti na caneca de folha, que o Seu Miguelzinho tinha colocado asa, e saía para o quintal comendo o pão. A caneca de folha deixava marca na testa, tanto tempo que a gente ficava bebendo e respirando dentro da caneca, o narizinho ficava cheio de gotinhas de vapor.
Mas no bufê, de vidro e espelhos manchados, tinha umas xícaras de porcelana, branquinhas por dentro e pintadas de amarelo por fora, com paisagem de coqueiro, casinha e mar. E também, do mesmo jogo, o bule, a leiteirinha, a manteigueira e o açucareiro. Mas era só de enfeite tudo isto, eu pensava. Até que veio o batizado da Auxiliadora, quando eu tinha quatro anos.
Na igreja, depois da missa cheia de incenso e do harmônio do Maestro Romão, minha irmãzinha bebê, de longa camisolinha branca, não estava no colo da mamãe, nem do papai. Estava no colo dos padrinhos, o Seu Vando e a Dona Bela Esteves. Orações, a fala do padre, a vela acesa, o algodão com óleo na testa e no peitinho da criança... Depois, fomos todos para casa – e os padrinhos também! Foram tomar café com a gente.
Quer dizer, tomar café com o papai e mamãe. Nós, crianças, fomos para a cozinha, sob os cuidados da Vovó, que estava com o Bosquinho no colo. Vovó falou que era para dar sossego para as visitas, tinha que ir para o quintal. Mas bem capaz! A gente queria ficar no corredor, espiando pelo vão da cortina de chita. Eu espiava, disputando espaço com os maiores, num empurra-empurra, mas não podia dar muita risada, nem cochichar muito.
Eu espiei, e vi. Ó maravilha! A mesa tinha ido para perto da janela da varanda, estava com toalha. Em cima da mesa, as xicrinhas amarelas! E o bulinho! E a leiteirinha, com o açucareiro de tampa, e a manteigueira! E tinha manteiga, que compraram na Dona Naná. E tinha pão doce, de casca marrom brilhando!
As cadeiras de pau tinham recebido capas de morim branco, que mamãe tinha costurado e bordado, com tirinhas para prender no encosto. Sentados, solenes, os adultos conversavam contentes, comentavam coisas, passavam manteiga no pão doce, punham café e leite, e tudo fumegava, e as colherinhas dançavam dentro das xícaras, tilintando. Mas me deram um bruto de um empurrão por trás e eu fui de cambalhota para o meio da sala e já fui me levantando aos trambolhões para me safar dali, mas deu tempo de ver a cara da minha mãe e o gesto que queria dizer “Ocê me paga!”.
Tinha mais ninguém no corredor não. Fugi para o quintal e estava todo mundo lá, rachando o bico de tanto dar risada.
Acho que não apanhei não, acho que ninguém apanhou, não lembro. Lembro que logo depois a gente tomou café com leite com pão doce com manteiga. Mas o café foi nas canecas de folha mesmo, as xicrinhas amarelas já tinham voltado para o bufê e ali ficaram mais uns vinte anos, até que foram sumindo, quebrando, desaparecendo.
O bufê acabou, as cadeiras de pau também, e as suas capas de encosto. Acabou essa coisa de ter na sala mesa com cadeiras. Acabou isso de a gente levar tombo e dar risada, a gente vai ficando mais fraco e triste e os tombos agora fazem a gente chorar.
Xicrinhas douradas de café com leite! Doces, lindas, frágeis, como a infância!  Frágeis como a vida.
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Texto de Paulo Tarcizio da Silva Marcondes
Fotos: Mercado Livre